quinta-feira, 22 de junho de 2017

Dylan Dog – Especial – Incubus (Record)




Editora: Record
Autores: Tiziano Sclavi (texto), Luiggi Piccatto (desenhos)
Número de páginas: 50
Data de Lançamento: 1993                         

Sinopse: Dez anos após um tenebroso acontecimento que custou sua memória, o escultor milionário Val Finn contrata Dylan Dog para ajudá-lo a descobrir a verdade sobre seu misterioso passado. Ao longo das investigações, realidade e pesadelo se mesclam na condução a uma revelação surpreendente e perturbadora.

Crítica:

Cerca de um ano após ter cancelado a série regular de Dylan Dog, a editora Record decidiu levar o personagem uma vez mais às bancas na forma de uma edição especial, para em seguida interromper sua publicação em definitivo. Intitulada “Incubus”, essa aventura foi lançada em formato de álbum (20,5 x 27 cm), com capa em papel cartão e miolo em offset branco. Desconfia-se que tenha tido uma tiragem menor do que as edições regulares, pois rapidamente assumiu status de raridade entre os colecionadores e por muitos anos teve exemplares usados disputados à tapa e vendidos por pequenas fortunas em sebos do Brasil afora. Hoje em dia, com sites de leilões e muitos sebos vendendo seus acervos via internet, encontrar uma cópia não está mais nem tão difícil e nem tão caro assim.

Contudo, a aura cult que essa edição adquiriu decerto não se deve apenas ao formato pouco usual em que foi publicada e nem somente pela sua raridade, mas também pela qualidade da história que, apesar de curta – metade do número de páginas de uma edição habitual – possui todas as virtudes corriqueiras de uma boa aventura do Investigador do Pesadelo.

Chama atenção a estrutura narrativa que se vale do mesmo recurso já utilizado em histórias como “A Beleza do Demônio” e “Diabolô, O Grande” (e que também passaria a ser amplamente usado em edições posteriores) que consiste em conduzir o enredo alternando os pontos de vista de diferentes personagens, com seus respectivos delírios e pesadelos, mas sem apresentar ao leitor nada que distinga quando se trata da perspectiva de um ou de outro. Geralmente isso só é elucidado ao fim da história e, em alguns casos, nem é exposto claramente, deixando ao leitor a tarefa de exercitar a imaginação em busca da explicação mais coerente. No caso específico de “Incubus”, isso é interessante porque, mais do que nos mostrar as ações de Dylan Dog, nos mostra o que outros personagens pensam (ou deliram) em relação a ele.

Em diversas tradições ocultistas, os incubus – assim como as sucubus – são tidos como seres do plano astral que sugam a energia vital dos seres humanos através de sonhos e pesadelos de teor sexual. Apesar de presente, nesta aventura essa abordagem não chega a ser aprofundada, estando o foco das atenções voltado para a criatura oriunda dos pesadelos e os desdobramentos decorrentes de sua interação com aqueles que sabem de sua existência. Nesse sentido, me surpreendeu a grande semelhança de alguns elementos do roteiro com partes da trama de uma das histórias abordadas no filme “Contos da Escuridão” (Tales from The Darkside: The Movie), lançado em 1990 e tendo Christian Slater como destaque do elenco. Sem dúvida, a película forneceu considerável inspiração para algumas das ideias que Sclavi desenvolveu aqui.

O principal destaque fica por conta da natureza conceitual do monstro, que, ao se assumir como a encarnação de um pesadelo vivo, se alimenta das más memórias dos indivíduos, em concordância com a noção de que os erros do passado são o melhor combustível para traumas e sonhos ruins. Também gostei muito do final, onde a verdade sobre Val Finn vem à tona, bem como os desdobramentos decorrentes dessa revelação.

Os desenhos de Luiggi Piccatto são simplórios, merecendo destaque apenas a forma com que desenvolveu a personagem Truth, cujos traços são convincentes em evidenciar que se tratava de uma mulher muito bonita e sensual.

Em resumo, creio que “Incubus” cumpriu seu papel de marcar a despedida de Dylan Dog da editora Record de forma memorável, com uma ótima história publicada com o capricho típico destinado pela editora carioca aos seus personagens bonellianos. Apesar de curta, essa fase editorial do personagem no Brasil foi memorável, e tenho certeza que será sempre lembrada com carinho pelos fãs que – a exemplo deste que aqui escreve – conheceram o Investigador do Pesadelo nessa época e nunca mais deixaram de ter seu imaginário povoado pelas suas misteriosas e fascinantes aventuras.
      
Classificação: 4,5 

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