terça-feira, 13 de junho de 2017

Dylan Dog & Martin Mystère – Última Parada: Pesadelo (Record)




Editora: Record
Autores: A. Castelli e T. Sclavi (texto), G. Freghieri (desenhos)
Preço: Cr$ 1.700,00 (preço da época)
Número de páginas: 172
Data de Lançamento: Janeiro de 1992       

Sinopse: Em 1990, estranhos acontecimentos ocorridos simultaneamente nos metrôs de Londres e Nova York despertam em Dylan Dog e Martin Mystère a desconfiança de que uma ameaça manifestada 12 anos antes – ocasião em que ambos se conheceram – possa estar de volta. Martin então voa para Londres em companhia de Java e Diana para se encontrar com Dylan e Groucho. Enquanto tentam solucionar o mistério, o Investigador do Pesadelo e o Detetive do Impossível narram para seus amigos os macabros eventos ocorridos em 1978, trazendo à tona velhos segredos e mágoas, assim como também um antigo e diabólico inimigo.

Crítica:

Escrever sobre essa edição tentando manter um mínimo de imparcialidade chega a ser uma tarefa difícil, pois, ao meu ver, trata-se não apenas de uma das melhores aventuras de ambos os protagonistas como também se constitui em uma das minhas histórias em quadrinhos favoritas de todos os tempos.

Lançada originalmente na Itália como uma edição especial de fim de ano, em 1990, essa história fez muito sucesso na terra natal da Sergio Bonelli Editore, o que motivou a Record a publicá-la também aqui no Brasil. Isso foi feito em Janeiro de 1992, época em que a série regular brasileira de Dylan Dog estava no nº 05 e a de Martin Mystère no nº 14. A revista chegou às bancas com o habitual capricho que a editora carioca destinava aos heróis bonellianos – em formato italiano, com capa plastificada e textos complementares que ajudam o leitor ocasional a se situar em relação aos personagens. 

Relendo recentemente – talvez pela vigésima vez – ainda chama a atenção como todos os elementos se encaixam com perfeição, desde os desenhos de Freguieri, que está entre os melhores ilustradores que um dia já retratou o Investigador do Pesadelo, até o roteiro, capitaneado por Castelli com o auxílio de Sclavi, que acumula muitos méritos, conforme iremos expor em seguida.

Em primeiro lugar, se destaca o perfeito equilíbrio entre a abordagem de Martin Mystère e Dylan Dog. Ao contrário de outros crossovers que já li – principalmente envolvendo super-heróis – onde um personagem assume a função de protagonista e outro de coadjuvante, aqui ambos participam ativamente da trama, abordando os diferentes elementos do enredo sob seu próprio prisma, hora em separado, hora em conjunto, tanto no presente quanto no que se refere ao passado. E por falar em passado, este provavelmente seja o ponto mais alto da história. É fascinante acompanhar aqueles eventos ocorridos em 1978, quando Martin estava no auge de seu sucesso como escritor e Dylan ainda era um jovem policial recém-ingressado na Scotland Yard. Isso nos leva a outra grata surpresa do roteiro: responder algumas perguntas que provavelmente todo fã já tenha se feito a respeito do Investigador do Pesadelo. Por que Dylan decidiu abandonar a carreira policial para investir na desacreditada profissão de detetive particular de casos bizarros? Por que ele insiste em usar (quase) sempre aquela roupa tradicional, composta de calça jeans, camisa vermelha e blazer preto? Tudo isso é explicado nesta edição.

Outro destaque é a ambientação da história, algo que sempre me chamou a atenção nas aventuras de Martin Mystère, uma vez que Castelli geralmente costuma incluir em seus roteiros descrições e impressões diversas acerca dos locais e épocas em que se passam suas histórias. Em “Ultima Parada: Pesadelo” temos não apenas um olhar cativante sobre os EUA e a Inglaterra dos anos 70 e início dos anos 90 – principalmente pelo crítico prisma de Martin – como também um panorama da realidade das estações de metrô, seu funcionamento e os tipos peculiares que por elas transitam diariamente.

Cabe ressaltar que esse belo trabalho de ambientação é favorecido pelos já mencionados ótimos desenhos de Freguieri. Repare como as ruas e estações de metrô são abordadas com riqueza de detalhes, geralmente destacando seus aspectos mais sombrios e degradados. Inclusive, nas cenas de pesadelos, todas as paredes aparecem decoradas com cartazes de filmes de terror, assim como as placas indicativas, que surgem com letreiros do tipo “Hell Bound” e “Death Station”, evidenciando o esmero com que o trabalho foi realizado para contribuir com o clima macabro que a história exigia. A beleza dos traços utilizados ao desenhar as fisionomias dos personagens também merece elogios pelo nível de detalhamento e realismo. Cito como exemplo Diana, a eterna noiva de Martin Mystère, que nunca me pareceu tão bonita quanto nesta edição. Nas cenas que retratam o inferno esse detalhismo também fica evidente, com cada uma das inúmeras criaturas recebendo uma fisionomia própria, diferente das demais. Sem falar nas imagens que fazem referências a ilustrações conhecidas de teor ocultista e cenas marcantes de filmes de terror. Sem dúvida, um grande trabalho.

Mesmo não sendo de um dos meus ilustradores favoritos, a capa (e contracapa) de Stano também merece elogios por homenagear vários monstros clássicos da literatura e do cinema de horror, como a Múmia, o Lobisomem, Monstro de Frankenstein, e até o famoso ator do cinema mudo, Lon Chaney, além de alguns zumbis.


Ainda me agradou bastante o desenvolvimento da dinâmica do relacionamento entre Martin e Dylan, marcada por uma admiração mútua, mas, ao mesmo tempo, pontuada por atritos decorrentes das óbvias diferenças de temperamento e pelos resquícios da mágoa resultante da tragédia que maculou o seu passado em comum. Nesse sentido, também é divertidíssima a interação entre Groucho e Java, sendo que este último provavelmente tenha sido o único personagem que até hoje riu para valer de todas as piadas do pseudo-humorista.

Para concluir, sem o risco de incorrer em spoilers, achei genial a referência à teoria das Linhas Ley, algo que sempre me fascinou e que aqui é abordado de forma magistral, o que também reforça algo que já mencionei em textos anteriores e se refere ao impressionante conhecimento que os autores Castelli e Sclavi demonstram possuir das mais diversas áreas do conhecimento, inclusive de várias vertentes ocultistas.

Enfim, “Última Parada: Pesadelo” é, a meu ver, uma verdadeira obra-prima dos quadrinhos. Se você ainda não leu, leia com urgência e se deixe levar pelo fascinante (e obscuro) brilhantismo da obra. Se você já leu, não faz mal. Compre seu bilhete, embarque no seu vagão e curta uma vez mais esse genial e macabro passeio de metrô.
     
Classificação: 5,0

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