segunda-feira, 3 de julho de 2017

01 – Dylan Dog – Johnny Freak (Conrad)





Editora: Conrad
Autores: Mauro Marcheselli e Tiziano Sclavi (texto) e Andrea Venturi (desenhos)
Preço: R$ 4,50 (preço da época)
Número de páginas: 114
Data de Lançamento: Outubro de 2001

Sinopse: Dylan Dog encontra um garoto mudo que teve as pernas amputadas e vários órgãos retirados do seu corpo. Enquanto procura fornecer toda a assistência possível a Johnny – como passou a ser carinhosamente chamado – o Investigador do Pesadelo tenta descobrir algo sobre seu misterioso passado, mas há alguém disposto a tudo para que a terrível verdade não venha à tona.

Crítica:

Depois de um hiato de vários anos longe das bancas brasileiras, Dylan Dog voltou a ser publicado em outubro de 2001 pela Conrad Editora. Para testar a receptividade do público leitor ao Investigador do Pesadelo, a editora paulista decidiu colocar no mercado uma série fechada de seis edições escolhidas entre as originais italianas pelo próprio criador do personagem, Tiziano Sclavi, para ser lançada nos EUA através da Dark Horse Comics, o que aconteceu em 1999. Em uma tentativa de chamar a atenção do público norte-americano, as capas dessas seis edições receberam novas versões, desenhadas pelo aclamado Mike Mignola, conhecido por muitos trabalhos com personagens da Marvel, da DC, e principalmente por ser o criador do personagem Hellboy. A série brasileira foi então publicada tal e qual a versão dos EUA.

Não abordarei aqui os aspectos físicos das publicações da Conrad, pois farei isso na próxima resenha, uma vez que a edição de nº 2 é uma republicação de uma história já lançada anteriormente pela Record, e como já falei sobre o enredo naquela crítica, poderei então abordar outros tópicos. Vou me limitar a dizer que não gostei das capas do Mignola, assim como não gosto dos desenhos dele – que me parece às vezes tenderem para o caricato – em qualquer outro de seus trabalhos. Obviamente, isso é meramente uma questão de gosto pessoal, subjetiva, tanto que várias pessoas acharam essas capas muito interessantes, mas eu prefiro as originais, sem sombra de dúvidas.

Para tratar do roteiro, iremos entrar em uma área que pode ser considerada, no mínimo, polêmica. Digo isso porque já vi em fóruns de internet e em resenhas de outros autores muita gente rasgando elogios a “Johnny Freak”, alguns até dizendo que se trata de uma das melhores histórias do Investigador do Pesadelo, enquanto que, de minha parte, respeito a opinião de quem pensa assim, mas discordo totalmente e vou explicar o porquê.

Em primeiro lugar, devemos esclarecer que não há nenhum elemento sobrenatural nesta história. Isso não é um problema, pois há varias outras aventuras de Dylan Dog que também são assim e funcionam perfeitamente como entretenimento de qualidade. Porém, nesses casos, onde tudo transcorre no “mundo real” a verossimilhança precisa ser minimante convincente para que a suspensão da descrença do leitor funcione, e aqui isso passa longe de acontecer. Em uma cidade com vários milhões de habitantes, como Londres, pessoas que até então não se conheciam, passam a se encontrar por “coincidência” em cada esquina. Coisas do tipo: a enfermeira de Johnny, que é affair de Dylan, é também noiva justamente do cara com quem ele brigou no parque, que está atrás de Johnny, que está internado justamente no hospital da noiva, e todos se encontram seguidamente, nos mais diversos pontos da cidade, e por aí vai... Não deixa de ser um tanto forçado. Sei que isso pode parecer rigor excessivo com um gibi, mas as histórias do Investigador do Pesadelo sempre primaram por se esmerar até nos mínimos detalhes. 

Mas, não é só isso, há outras cenas que são patéticas, para não dizer outra coisa. Começamos com o fato de que quem bate à porta de Dylan para pedir ajuda no início da história é... um cachorro! Isso mesmo, um cachorro! Depois temos aquele momento forçadíssimo no parque onde Dylan decide fingir que tem uma arma no bolso do casaco e... bem, melhor nem comentar a maneira com que a questão foi solucionada. Mas, o pior de tudo mesmo foi aquela sequência em que Johnny está no seu quarto no meio da noite, entristecido, e então decide sair correndo e pular na cama de Dylan, em algo parecido com aquelas cenas de filmes infantis (ou comerciais de margarina) em que os pais ficam sorrindo na cama com o filho deitado entre eles, só que nesse caso Dylan e Dora estavam nus e havia acabado de transar! Confesso que fique torcendo para que, ao virar a página, ficasse claro que tudo não passava de um sonho ou imaginação de algum personagem, mas não, era real mesmo.

Aqui também é importante ressaltar que essas cenas não foram desenvolvidas em tom de comédia, pois seriam até aceitáveis se tivessem a intenção de se calcar no humor negro – que funciona muito bem em outras histórias – mas eram para ser sérias, o que, obviamente, não funciona direito.

 Contudo, o pior mesmo é o pretenso tom de dramaticidade que percorre toda a história. Ao que consta, o roteiro foi inspirado por um acontecimento real, o que por si só já daria um ar dramático ao enredo. Além disso, todas as aventuras de Dylan Dog são perpassadas por certa melancolia, pois o próprio personagem é melancólico. Porém, nessa edição, o tom foi totalmente extrapolado, descambando para o dramalhão com ares de novela mexicana, com direito até a “revelações bombásticas” do tipo, quem é pai de quem, quem é irmão de quem, etc.

Eu sinceramente prefiro creditar tudo isso na conta de Marcheselli, pois, pelo que se sabe, ele foi o roteirista principal desta edição, contando apenas com colaborações pontuais de Sclavi. Não é que considere essa aventura totalmente ruim, mas sem dúvida me parece uma das mais fracas entre todas que já li do personagem e, por mais que me esforce, não consigo encontrar as virtudes que fizeram tantos leitores se declararem fãs de “Johnny Freak”.


Como se não bastasse, o trabalho de tradução e revisão me pareceu particularmente problemático nesta edição. Não gostei do fato de várias expressões terem sido mantidas em inglês, pois, apesar de não serem muito relevantes aos diálogos – “Right, right!”, “Goddamnit!”, etc – me parecem soar deslocadas e desnecessárias. Também me desagradou o uso de palavrões, pois, não querendo ser moralista e mesmo reconhecendo que esse tipo de leitura é recomendado para um público mais maduro, creio que as palavras de baixo calão não combinam com o nível dos diálogos tão marcantes ao universo dos personagens bonellianos em geral. Quanto à revisão, parece que faltou um pouco de atenção em alguns momentos, como por exemplo, no que se refere ao cachorro amigo de Dylan, que em certas passagens tem seu nome grafado como “Rosnento” e em outros como “Rosnante”.

Como se para combinar com todo o restante da edição, os desenhos de Andrea Venturi parecem igualmente irregulares, sendo bem detalhados e esmerados em alguns momentos e pendendo para algo muito próximo do cartunesco em outros.

De positivo, temos bons textos complementares do editor Cassius Medauar e de jornalistas e especialistas em HQs como Sidney Gusman, Cleiton Campos, Ivan Finotti e Julio Schneider, que ajudam a contextualizar as características do personagem e sua trajetória editorial até então, tanto na Itália quanto no Brasil.

Por fim, posso dizer com toda certeza que, se esta tivesse sido a primeira edição de Dylan Dog que eu tivesse lido, seria muito grande a chance de ter desistido de acompanhar as aventuras desse maravilhoso personagem. Felizmente, não foi assim que aconteceu. Contudo, fica o questionamento: que critérios teriam sido utilizados para que, entre tantas histórias geniais do Investigado do Pesadelo, justo esta tão problemática tivesse sido escolhida para constar nessa série? E as outras cinco edições, são do mesmo nível? Desenvolveremos essa análise nas próximas resenhas.  
       
Classificação: 2,0

Um comentário:

  1. Concordo! pelos comentários que li na internet a respeito dessa história como sendo a melhor história do Dylan Dog por muitos antes de ler criei muitas expectativas e na minha opinião passou longe de ser a melhor história do Dylan Dog.

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